segunda-feira, 17 de julho de 2017

#Histórias de mãe! - Ninguém me contou…

“Ninguém me contou que descobrir que estou grávida seria tão mágico. Tantas sensações, tanta emoção. Ninguém me contou que me faria tremer de cima abaixo sem ser capaz de definir o que sentia.

Ninguém me contou que iria querer contar a toda a gente, que a ansiedade iria tomar conta de mim.

Ninguém me contou que havia tanto a descobrir numa ecografia. Que aquele dia que era suposto ser maravilhoso podia também ser tão trágico.

Ninguém me contou o que seria sofrer um aborto. A dura e cruel realidade.

Ninguém me contou naquele dia, em que eu só pensava em ver o meu bebé (seria menino ou menina?!) que me podiam dar a pior noticia da minha vida. Uma notícia que deixa marca para sempre…

Ninguém me contou o quão difícil seria contar à minha mãe que afinal já não seria avó!

Ninguém me contou que me ia sentir a pior pessoa do mundo. Afinal, o meu corpo falhou no seu maior propósito.

Ninguém me contou que me sentiria tão mal. Tão impotente e inútil. Tão desesperada e angustiada. Tão dorida, tão frágil, tão triste…

Ninguém me contou que afinal eu não ia ser mãe. Ainda que eu seja mãe, para sempre, desde o primeiro minuto.

Ninguém me contou que seria incapaz de voltar a sorrir durante tanto tempo. Incapaz de me voltar a sentir bem, de me sentir mulher. Incapaz de recuperar a esperança na vida. Ninguém me contou que me sentiria tão perdida, sem norte, nem rumo. Sem sentido.

Ninguém me contou como as palavras das pessoas doem tanto. Dizerem que “depois tens outro” ou “foi melhor assim”, são facas espetadas no meu ventre.
Ninguém me contou que o meu marido ia chorar. De pena, de tristeza, de impotência. Pelo bebé, por ele, por mim, por nós.

Ninguém me contou que um ser que nunca nasceu jamais seria esquecido, que me ia visitar nos meus sonhos, mesmo não conhecendo o seu rosto.

Ninguém me contou que eu um dia colocaria um anjo no céu, e que me iria doer tanto.


Ninguém me contou que um aborto era assim…”

(Imagem: Pais&filhos)


Anónimo

2 comentários:

  1. Querida/Querido,

    Não. Nunca ninguém nos contou aquilo que não vivemos em primeira mão. Não há palavras que descrevam e qualifiquem algo que, de tão intenso e absurdo, não tem uma forma fidedigna de ser expressado. Depois...,bem depois grassa a incompreensão da entidade laboral, as ameaças veladas, para além de te sentires a maior falhada deste mundo. Falhaste com a única coisa com que não podias falhar... e logo tu.. que sempre fizeste tudo para que as coisas corressem pelo melhor...

    A sensação de isolamento é inevitável. Estás sozinha, melhor, sentes a maior solidão que alguma vez existiu. O mundo perde sentido e cores e cheiros e sensações de bem estar e alegria. Resta o sabor amargo da derrota e a ... vergonha por não teres controlado o teu corpo, por não teres conseguido proteger aquilo que se afigurava como o teu tesouro...
    Já perdi 6 gravidezes,sempre com o mesmo tempo de gestação: 2 meses. Desta vez, há duas semanas, no dia anterior ouvimos o coração...no dia seguinte a perda.
    No meio de tudo disto, consegui ter a minha filha maravilhosa.. um sonho de menina, que fez agora 2 anos. Mas agora não me posso enfiar na cama e chorar à frente dela está fora de questão... é ela que me faz saltar da cama todos os dias, mesmo rota de dor... mesmo cheia de dores e com hemorragias loucas que duraram 15 dias.

    Como se ultrapassa? Não se ultrapassa. Aconteceu. É o que tens de aceitar. Chora tudo, berra tudo. Pergunta a Deus porquê. Porquê tu e o teu marido /tua mulher. Acredita que te vai tornar mais forte, mas sem azedumes, por favor. Não te maltrates e não te martirizes. Não importa se os outros te vão dizer lugares comuns, na tentativa (inglória) de te ajudarem. Não ajudam. Só tu, no calor da família e das amizades, podes resolver na tua cabeça, que estas coisas acontecem e que, a não ser que haja abortamentos de repetição, não vale muito a pena questionar a natureza...

    Depois de bater a inúmeras capelinhas sei que o meu problema tem a ver com Trombofilia, um problema de coagulação do sangue que não deixa o sangue passar pela placenta para o embrião... A Maior parate dos médicos nem sabe o que isto é... e o que pode provocar numa gravidez. A análise às trombofilias nem faz parte do conjunto de análises que uma gravida faz normalmente... Há obstetras e ginecologistas que nem sabem do que se trata, porque é estudado há poucos anos...
    Enfim deixo-vos estas palavrsa na esperança de poder diminuir,ainda que pouco a vossa solidão...

    Cristina

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    1. Obrigada pelas suas palavras Cristina!
      Espero que tudo se componha da melhor forma possivel e que não sinta sozinha, porque na verdade, num mundo de 7 biliões de pessoas, "sozinha" é algo que nem deveria existir.
      Um beijo grande para si!

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